Bruno Seco - Treinador da Selecção Nacional de Futebol de Rua


Olá Mister Bruno!

Obrigado por aceitares este desafio do Muda O Teu Jogo. Afinal de contas, não é todos os dias que temos connosco um CAMPEÃO DA EUROPA! Agradeço a disponibilidade para partilhares connosco as tuas experiências como treinador e a tua opinião sobre a preparação mental no desporto.

Que este “Desconto de Tempo” sirva também para ajudar a melhorar o rendimento de todos, é o nosso desejo.

















Qual o teu percurso no desporto? Como chegaste a treinador? E a Campeão da Europa?!

O meu percurso no Desporto iniciou-se, aos 11/12 anos, no Sport Clube Beira Mar e lá, fiz toda a minha formação futebolística até aos 18 anos. Foi nesta fase que tive de decidir se seguia o futebol ou os estudos.

Como o “jeito” não era muito, segui os estudos e licenciei-me em Educação Física e Desporto.

Em 1999 surgiu uma vaga de Treinador de Escolinhas, no S.C. Beira Mar e assim iniciei a minha “carreira” de Treinador. Por lá fiquei até 2005. Trabalhei 1 ano em Oiã, na Escola Academia Sporting e desde 2008/2009 que estou na Associação Desportiva de Taboeira, na Escola de Futebol.

Quanto ao Futebol de Rua, a minha primeira experiência foi em 2008, no torneio distrital de Aveiro, como treinador da I.P.S.S. Florinhas do Vouga. Fomos Campeões Nacionais em 2011 e 2012 e finalistas vencidos em 2013 e 2015. Chego a Seleccionador Nacional em 2011, cargo que ocupo até hoje. Em termos de competições internacionais, todos os anos participamos no Campeonato do Mundo, tendo obtido a medalha de bronze em 2015, em Amsterdão. Em 2016 realiza-se o primeiro Torneio Europeu, em Manchester, no qual participamos e onde, muito orgulhosamente, nos tornamos Campeões Europeus, vencendo a Holanda na Final, por 5-1.

 

Quais as tuas maiores influências, os teus valores, a tua filosofia de trabalho?

Não sou pessoa de me deixar influenciar muito. Sou mais de observar bastante e assimilar tudo o que poderá ser positivo para mim. Não posso dizer que seja fã ou seguidor de alguém em especial. Acho que aprendemos com todas as pessoas e com todas as filosofias. Temos de saber para onde queremos ir, qual o melhor caminho a seguir e ao longo do percurso ir fazendo as correcções e os ajustes necessários, para chegar ao destino ou ao objectivo proposto, com o maior sucesso possível.

Considero-me um homem de valores e de convicções. Existem alguns que para mim são fundamentais, tais como: lealdade, frontalidade, entrega, a capacidade de superação e de sacrifício e o altruísmo. As pessoas têm de ser verdadeiras com elas próprias, que é para os outros saberem o que esperar delas. Não podem existir máscaras nem subterfúgios. Não lido bem com traições, com falsidades, com injustiças e com manias de superioridade.

Em termos de trabalho, se for um trabalho individual, só meu, tento ser o treinador e o jogador ao mesmo tempo ou seja, tento dar o meu máximo, com entrega e dedicação total, mas sempre com auto-avaliações constantes. Critico-me muito, como forma de melhorar e tento “ver” a minha prestação de fora. Adoro a sensação de “Missão dada é missão cumprida”.

Se for um trabalho de equipa, em que todos remam para o mesmo lado, a minha filosofia de trabalho é que cada um terá de ter uma missão, um compromisso e terá de se dedicar a ele de corpo e alma. Se todos pensarem assim, se todos souberem qual é o seu papel e se se dedicarem a ele com gosto e afinco, as probabilidades de se alcançar o sucesso será bem maior. É necessária uma liderança forte e reconhecida por todos. O líder tem de mostrar o caminho. Tem de ter ideias próprias e arranjar soluções para se irem ultrapassando os obstáculos que vão surgindo. Mas não pode ser uma pessoa que imponha as suas ideias, só porque sim. Tem de ser “open mind”, aberto às opiniões construtivas dos restantes elementos do grupo. Num trabalho de equipa não pode existir qualquer tipo de “boicotes” nem sub grupos. Costumo dizer que uma equipa é como o corpo humano. Cada órgão, cada membro, cada elemento tem uma função concreta e bem definida e no seu conjunto, todos unidos formam uma máquina perfeita.

 

Quais os maiores desafios que enfrentaste no Futebol? Qual a mentalidade com que os encaraste?

Existem vários tipos de desafios, certo? Existem os desafios pessoais, os competitivos, etc e eu acredito que se não existirem, temos de os inventar, porque senão, não existem objectivos a atingir. E para os enfrentar é necessário superação.

Em termos de competição, não sei se foi o maior ou não, mas um grande desafio foi disputar o jogo para atribuição do 3º e 4º lugares no Campeonato do Mundo de 2015, em Amsterdão. Depois de perdermos com o México nas meias finais, não foi fácil levantar a cabeça. Estávamos preparadíssimos para disputar a final, mas o único factor que não controlamos, traiu-nos: a Sorte. E quando a bola não quer entrar, não entra mesmo.

Não foi fácil, mas os jogadores conseguiram-se motivar e ganhamos ao Brasil, alcançando a medalha de bronze.

Para nós era a Nossa Final, por isso há que esquecer o jogo com o México, cerrar os dentes e ir para o campo como se da final se disputasse.

A mentalidade vencedora, trabalha-se todos os dias!!!

 

Que aprendizagens consideras as mais importantes que o desporto te deu? E que transferências destacas para a vida longe dos relvados?

As maiores aprendizagens que o Desporto me deu, foram: sozinhos não vamos longe,  Espirito de camaradagem e de confiança nos “nossos” e o Impossível não existe.

O transfer que faço do Desporto para a “Vida Real”, é exactamente que o Desporto é a “Vida Real”, numa escala e numa dimensão, mais pequenas.

A nossa equipa é a nossa família, o campo é a nossa casa, o balneário é o nosso quarto, os adversários, são as pessoas com quem o “Destino” nos cruza e nos obrigam a dar o nosso melhor e a superarmo-nos, o árbitro é a autoridade, etc.

A nossa mentalidade no Desporto, penso que deve ser a mesma que temos perante a vida. Insistir, Persistir e nunca Desistir. O “querer muito”, muitas vezes é mais importante do que “ter um dom”, pois desta forma o acomodar, não aparece e motiva-nos a trabalhar no limite.

Há que traçar objectivos, materializar os sonhos e trabalhar para os alcançar.

A sorte e o sucesso, dão muito trabalho!!!















 

Quais as características mentais que mais admiras num(a) atleta? E num(a) treinador(a)? Algum momento em que essas características te tenham “marcado” positivamente?

Admiro bastante um atleta que se entregue a 200% nos treinos, que se tente superar constantemente, que tenha vontade de aprender e de vencer e que se sinta tranquilo e confiante na competição. Para mim são sinais dos vencedores. Gosto da ansiedade mas não gosto do nervosismo, pois uma significa o desejo de rapidamente colocar em prática o que aprendeu e aquilo para que trabalhou e o outro significa falta de preparação. Gosto dos atletas que na “hora do aperto” assumem os riscos e as responsabilidades. Todo o atleta, a meu ver, tem de ter perfil de Capitão.

Nenhum atleta sabe ou conhece quais são os seus limites, qual o máximo que consegue dar, e eu admiro muito aqueles que trabalham no duro para os atingir, melhorando dia após dia, mas que sabem de antemão que nunca lá chegarão. É sempre possível dar mais um pouco. Superação!

Num treinador, admiro a capacidade de liderança, de motivar e potenciar os atletas, de os fazer acreditar que são os melhores do mundo, de fazer com que toda a equipa o siga, sem ter de se impor. Deve ter fome de vencer, mas não fome de Poder! Deve ter a capacidade de prever e antecipar possíveis problemas e soluções e principalmente deve ter o poder de se auto motivar, mesmo nas adversidades. Deve ser mestre  em dominar o efeito Placebo.

Um bom exemplo da Força Mental, foi dado por um dos nossos Guarda Redes, que lesionou um joelho durante um jogo, aguentou firme a dor e ia-se mentalizando que só falta um minuto para acabar. E faltava sempre só um minuto para acabar. E esse minuto durou bem mais do que 60 segundos!!!

 

Que “linha vermelha” não permites que os teus atletas transponham?

Confundirem o “à vontade” com o “à vontadinha”. Existe uma linha invisível que não pode ser ultrapassada. O respeito pelas pessoas e pelas funções que desempenham, nunca pode ser esquecido.

Os atletas não podem sentir que estão na sua zona de conforto, pois isso leva ao comodismo.

Existem situações, em que “dar na cabeça” é positivo e obrigatório, principalmente quando os atletas se julgam os maiores, com altivez, desvalorizando e inferiorizando os colegas e/ou os adversários. Nestas situações têm de colocar os pés na terra e perceber que os outros, é que os têm de considerar “Grandes” e nunca eles próprios. Muitas vezes perdem esta noção.

A linha do Respeito, nunca pode ser ultrapassada!

 

Qual a importância do Treino Mental na tua preparação diária enquanto Treinador? E na dos teus atletas? Que evoluções maiores (e desafios) registas nesta área do treino desde que te estreaste?

O Treino Mental, é tão importante como é o treino físico, técnico ou táctico.

A fé, o querer e o acreditar, movem montanhas.

Gosto quando um jogador me diz “Nunca pensei que conseguisse fazer isto!”. Ao qual respondo “Mas conseguiste. Acredita sempre e trabalha mais!”

A nossa mente é que comanda o nosso corpo, logo só temos de treinar a mente, para que esta obrigue sempre o corpo a dar mais um pouco.

Para alcançar o Sucesso, o primeiro passo é visualiza-lo nitidamente.

Eu por norma, preparo sempre os treinos na véspera da sua operacionalização. Quando o estou a elaborar, visualizo-o, traço-lhe um fio condutor, com variantes e condicionantes, do simples para o complexo, e questiono-me “Como é que vou conseguir motivar a equipa a aplicar-se e a superar-se no treino?”  Por norma coloco-me no lugar do atleta, e tento perceber o que me motivaria a mim. Um treinador precisa analisar rapidamente como estão as tropas. Se estão muito cabisbaixos, às vezes uma brincadeira de 5 ou 10 minutos para desanuviar, é o suficiente. E a partir dai, vamos ao trabalho!

Cada vez mais o Acreditar, é sinónimo de Sucesso. A confiança cresce á medida que o medo de tentar e principalmente de falhar, vai diminuindo. E se o fracasso surgir, é preciso ultrapassa-lo o mais rápido possível, e voltar a tentar com mais motivação e crença. Para se ganhar é preciso estar preparado para se perder!













 

Fala-nos um pouco do Futebol de Rua e das principais diferenças para o futebol que melhor conhecemos, seja de 11, de 7, de praia ou futsal.

O Futebol de Rua, enquanto Projecto, tem como objectivo a Inclusão Social, através do Desporto. Serve para capacitar os participantes, com competências sociais e desenvolver as pessoais.

Enquanto modalidade desportiva, tem umas regras muito próprias:

- Joga-se 4 contra 4 (GR + 3)

- Tempo de jogo 14 minutos, dividido em duas partes de 7´, com 1´de intervalo.

- O campo tem 22 mts de comprimento e 16 mts de largura.

- Tem tabela a toda a volta do campo

Quanto às regras do jogo, propriamente ditas:

- Existe sempre superioridade numérica de quem ataca. Ataca-se sempre 3x2

(O avançado da equipa que defende, tem de ficar no seu meio campo ofensivo.)

- O GR não pode sair de dentro da área e os outros jogadores não podem entrar. Se isto acontecer é marcado penalty.

- Na marcação do penalty, na linha de meio campo, a bola é lançada com a mão para a frente, e o remate tem de ser feito com a bola em movimento.

- Após a marcação de um golo, o GR coloca logo a bola em jogo, sem esta ir ao circulo central.

Eu costumo comparar os diferentes tipos de “Futebois”, com os desportos de raquete.

Se comparar o Futebol de 11 ao Ténis, o Futebol de Praia ao Badminton, o Futsal ao Ténis de Mesa (Ping Pong em Chinês ;-) ), o Futebol de Rua será o Squash. É um jogo muito intenso, com poucos momentos de paragem.

Para se visualizarem jogos, basta pesquisar no youtube “HomelessWorldCup”

 

Tens a oportunidade de trabalhar com atletas que são cidadãos carenciados. Quais as principais particularidades, a nível do Treino Mental, do Futebol de Rua? O que faz brilhar os olhos dos atletas que praticam esta variante do futebol? Como te ajustaste a esta realidade, vindo do futebol “clássico”?

É verdade que a maior parte dos jogadores de Futebol de Rua são oriundos de comunidades socialmente desfavorecidas. O treino e o trabalho que temos com os jogadores, a nível mental e psicológico, é bastante e muito intenso. Tem a ver com crença, com acreditar, com vontade e motivação, com paixão, com a mentalização que ninguém é melhor que nós e que só se obtêm resultados com muito trabalho.

A nossa função, enquanto equipa técnica, é “partir muita pedra” a nível mental, na cabeça dos jogadores. Têm muitas manias, muitas ideias pré estabelecidas, muitas frustrações, muitos medos e receios. Ou então temos o oposto. Confiança a mais, mania de superioridade, espirito de sacrifício muito reduzido, individualismo, etc.

O nosso trabalho, é fazer com que um grupo de jovens, oriundos de vários pontos do país, que não se conhecem, se transforme numa Equipa, com motivações e objectivos em comum. Termos 10 dias para o conseguir. Não existem receitas. Existe sim muito trabalho, muita entrega e muita vontade.

Cada jogador é uma pessoa individual, e como tal temos de recorrer a estratégias diferentes para cada um. Temos de perceber qual o melhor caminho para conseguir maximizar as capacidades individuais, de maneira a formarmos um conjunto forte.

Os olhos dos jogadores, muitas vezes antes de brilharem, têm de ser lavados, ou seja, através de emoções fortes, têm de chorar. E isto é bom, pois desta forma todas as máscaras, protecções e defesas, caem!

A partir daqui, estão preparados para ouvir e prontos para formar um grupo coeso.

O brilho nos olhos aparece quando percebem que o Futebol de Rua, é muito mais que uma modalidade desportiva, que o Futebol de Rua muda vidas, mesmo.

Os olhos brilham quando se apaixonam pelo Projecto e como em qualquer paixão, entregam-se de corpo e alma. Brilham os deles e reluzem os meus.

Para mim foi muito fácil ajustar-me ao Futebol de Rua, pois adoro futebol, em todas as suas vertentes e estou ligado á área social há muitos anos. Estou no Futebol de Rua, desde sempre como voluntário, e acho que isso diz tudo. Apaixonei-me!

 















O que te realizaria mais enquanto Treinador? Como idealizas o teu futuro na modalidade?

Sinceramente, o que me realizaria mais enquanto Treinador, seria que todos os meus atletas, e no Taboeira são 208, só este ano, daqui a uns anos me falassem na rua e me dissessem “Lembro-me bem de si e não esqueço do que me ensinou, enquanto jogador e enquanto pessoa”. Que grande recompensa seria!

Gosto mais de ser visto como Professor, como aquele que ensina, do que como Treinador, aquele que apenas os treina.

Quanto ao meu futuro, se for como é o Presente, sinto-me realizado. Ensinar o que é o Futebol a crianças dos 3 aos 12 anos, na A.D. Taboeira e tentar ser campeão do mundo, de Futebol de Rua, com jovens, provenientes de contextos socialmente desfavorecidos, para mim está óptimo!!

 












Algum conselho a quem te admira e segue? Algum Lema que sigas e que queiras partilhar connosco?

Em tudo na Vida, fazer as coisas mal, dá o mesmo trabalho que as fazer bem.

Por isso já que tem de ser feito, que seja bem feito e com Alma!!

 









 






Muito Obrigado pela tua partilha!

Seguramente que nos ajudará a todos a aprender e a mudar.

Votos dos maiores sucessos, pessoais e desportivos!

Um Abraço,Fernando Santos