Fernando Rocha - Árbitro Internacional de Basquetebol



Olá Fernando!


Obrigado por aceitares este desafio do Muda O Teu Jogo! Hoje temos o prazer e o privilégio de estarmos perante um dos melhores árbitros europeus da actualidade e, sem margem de dúvida, o melhor representante do basquetebol português nesta última década. Agradeço a disponibilidade para partilhares connosco as tuas experiências como desportista e a tua visão sobre a importância da preparação mental dos agentes desportivos.

Que este “Desconto de Tempo” sirva também para ajudar a melhorar o rendimento de quem nos lê, é o que desejamos.












 

Qual o teu percurso no desporto? E no basquetebol? O que te levou para a arbitragem?

Antes de estar ligado ao basquetebol fui praticante de futebol quando tinha 15 anos. Joguei um ano no desporto federado mas no ano seguinte fiz um curso de árbitro jovem na associação de basquetebol do Porto.

Tudo começou por uma informação que chegou ao meu professor de Educação Física na altura sobre esse curso de formação de arbitragem e como eu gostava de arbitrar os jogos nas aulas foi-me colocado o desafio.
Após a aprovação no mesmo, durante uma época, arbitrei jogos de minibasquetebol que  foi onde eu ganhei um gosto especial pela função. Na época seguinte a Associação de Basquetebol do Porto convidou-me para frequentar um novo curso, agora de Árbitro de Basquetebol.

Portanto, desde os 16 anos que sou árbitro de basquetebol.
 

Quais as tuas maiores influências, os teus valores, a tua filosofia de trabalho?

A arbitragem sempre foi para mim uma escola de virtudes e de valores.
Aprendi desde o início a ser responsável, justo, honesto e educado.

Várias pessoas foram importantes nesse momento e que me ajudaram a ser aquilo que sou hoje, a ter caráter, ser respeitador e cooperante.

Penso que o mais importante como filosofia é procurar sempre ser melhor, com exigência, na busca constante da excelência mas sempre com humildade.










 



Quais as aprendizagens mais importantes que o desporto te deu? E que transferências destacas para a vida fora dos pavilhões?

O Desporto e mais concretamente o basquetebol deu-me tudo. No entanto gostaria de destacar a verticalidade e a honestidade intelectual. Sempre disse o que penso e com frontalidade. Além disso, destacaria a tolerância e o respeito pelos outros.

 

A um árbitro exige-se que tome boas decisões (com rapidez e sob pressão) e que se relacione de forma exemplar com todos os agentes desportivos. Que características mentais deve um árbitro possuir? Em função das inúmeras exigências da alta competição, o que separa um árbitro de elite dum árbitro regular, a nível da robustez mental?

Do meu ponto de vista a concentração, antecipação daquilo que pode acontecer, serenidade e confiança.
Relativamente ao que separa os árbitros de topo dos outros existem muitos fatores, desde experiência, nível competitivo, capacidade de julgamento, etc...
Mas destacaria a capacidade de estar mentalmente preparado para intervir a qualquer momento, saber utilizar as diversas formas de comunicação e ter um grande controlo emocional sabendo ultrapassar os erros e estar preparado para a ação seguinte.

 















A arbitragem dum jogo de basquetebol é sempre realizada por uma equipa. Contudo, essa equipa é dinâmica pois varia de jogo para jogo. Apesar de ser a equipa a quem mais exigimos boas decisões, ninguém está nas bancadas a torcer por vocês com cachecóis ou cartazes. Podes ajudar-nos a compreender as particularidades e os desafios do trabalho destas equipas que deverão passar “despercebidas” para logo em seguida se “separarem”?

Realmente é muito importante aquilo que referes. O chefe de equipa deve, eu diria antes tem que ser capaz de fazer com que os elementos da equipa de arbitragem funcionem entre si. Tem que preparar o jogo conhecendo os seus intervenientes, transmitindo e partilhando com os seus companheiros a melhor forma de trabalhar em conjunto. É fundamental responsabilizar e criar um espírito de equipa de forma a poder existir dentro de campo consistência individual e coletiva.

Todos nós somos diferentes e é importante ao líder conhecer as qualidades de cada um e potenciar essas mesmas qualidades de forma a criar uma equipa mais coesa, cooperativa e com o mesmo objetivo que é sempre o de errar o menos possível, ter critério e o controlo total do jogo.

 

Quais as características mentais que mais admiras num(a) atleta? E num(a) treinador(a)? Podes partilhar connosco alguns momentos em que essas características te tenham “marcado” positivamente?

Relativamente ao atleta  eu destacaria o assumir a responsabilidade, ou seja, não ter medo de errar. Portanto a auto confiança.

No treinador a persistência e auto controlo. Serem capazes de, apesar das contrariedades que vão tendo ao longo de um jogo, procurarem sempre soluções que ultrapassem essas dificuldades.

Não tenho nenhuma situação particular mas admiro os jogadores que porventura falharam um ou dois lançamentos fáceis mas que num momento decisivo são sempre os primeiros a quererem a bola para decidirem. E nos treinadores admiro os que pedem sempre mais e exigem concentração máxima e empenhamento máximo independentemente do resultado.













 


Que importância assume o Treino Mental na tua preparação diária enquanto Árbitro? Que evoluções maiores (e desafios) registas nesta área do treino desde que te estreaste?

Esta é uma área que considero fundamental e que infelizmente não temos nenhum apoio, ou seja, cada um prepara-se sem qualquer apoio especializado externo.

Eu, antes de cada jogo, preparo-me tentando identificar todas as situações que posso encontrar no mesmo. Saber como reagir a determinadas atitudes, ações, comportamentos... Quanto mais situações eu controlar antecipadamente mais preparado estou, melhor e mais rápida é a minha resposta.

Tento controlar o maior número de fatores dentro da equipa de arbitragem e no jogo propriamente dito. Mas, como disse inicialmente, faço-o de forma empírica e sem um contributo especializado.

 

Tens a oportunidade de partilhar o campo regularmente com os melhores atletas e equipas europeias. Como qualquer atleta ou treinador, cometes erros de percepção e de análise. Com que mentalidade reages aos erros que cometes?

Como já disse, temos que ser capazes de ultrapassar o erro e aprender com ele. Só dessa forma poderemos evitar o mesmo erro novamente. Perceber quais os fatores que contribuíram para errar, corrigir imediatamente e estar preparado para a ação seguinte. O erro que cometemos já não podemos alterar, mas podemos evitar um novo erro se mentalmente nos focarmos no que vem a seguir.

 

O que consideras decisivo para que atletas e treinadores terminem uma partida sem queixas da equipa de arbitragem?

É decisivo que exista um critério aplicado com consistência do princípio ao fim, decisões consentâneas com o que realmente aconteceu e sem receio de ser impopular se a decisão tomada tiver sido a correta.

 

O que te realizaria mais enquanto Árbitro, para além do sonho de estares em Tóquio2020? Como idealizas o teu futuro na modalidade?

É uma pergunta de difícil resposta, contudo gostaria de arbitrar enquanto me sentir bem física e mentalmente. Neste momento na Euroliga não existe limite de idade (50 anos na FIBA) portanto gostaria de ser convidado para pertencer aos seus quadros por mais alguns anos.

Após terminar a carreira gostaria de trabalhar como responsável técnico da arbitragem nacional, cargo que não existe atualmente e poder ajudar a desenvolver o setor em Portugal.

 















11.Algum conselho a quem te admira e segue? Algum Lema que sigas e que queiras partilhar connosco?

Gostaria que cada um de nós procurasse ser melhor cada dia que passa na busca da excelência. Ter uma grande capacidade de autocrítica e trabalhar sempre mais.

Gosto muito de uma frase que foi dita num Clinic de formação há uns anos pelo Miguel Betancort (ex-árbitro internacional espanhol e responsável à época pelos árbitros na Europa): “HUMILDADE É SINAL DE FORÇA”.

É uma forma de estar e eu tento segui-lo sempre.

 
















Muito Obrigado pela tua partilha!

Seguramente que nos ajudará a todos a aprender e a mudar.

Votos dos maiores sucessos, pessoais e desportivos!

A começar já pela Final Four da Euroliga!

 

Um Abraço,

Fernando Santos