Ulisses Pereira - Seleccionador Feminino de Andebol / Treinador Centro Desportivo São Bernardo (Seniores Masculinos)

Olá Ulisses!
Obrigado por acederes ao desafio do Muda O Teu Jogo e fazeres uma pausa para partilhares connosco a tua vastíssima experiência como atleta e treinador e a tua visão particular sobre a preparação mental no desporto. Que este “Desconto de Tempo” sirva também para ajudar a melhorar o rendimento de todos os que o desejarem, é o nosso desejo.



Qual o teu percurso enquanto atleta? E como treinador?


Joguei andebol desde os 6 anos de idade até aos 31. Joguei no Beira-Mar, São Bernardo e Alavarium. Como treinador, comecei a treinar as iniciadas femininas do Alavarium e fui subindo os escalões até às seniores, onde conseguimos ganhar os primeiros títulos nacionais da história do clube, sagrando-nos bi-campeões nacionais de seniores femininas. Actualmente treino os seniores masculinos do São Bernardo, a selecção nacional sénior feminina e sou coordenador das selecções nacionais femininas.
 

Quais as tuas maiores influências, os teus valores, a tua filosofia de trabalho?

Não havia aí uma pergunta mais difícil? Diria que a harmonia do grupo e boa disposição é uma das minhas matrizes. Raramente alguém me verá a mandar um berro, embora a disciplina seja algo fundamental nas minhas equipas. Procuro não utilizar muito a palavra “trabalho” mas sim “treino”. Acredito que os atletas devem ter prazer no treino e procuro  encontrar formas de treino que vão ao encontro dos objectivos mas que os atletas se sintam satisfeitos de o fazer. Talvez por isso, ao longo dos 14 anos que levo como treinador, os atletas têm respeitado o compromisso e raramente falham. Procuro que todos se sintam importantes, não apenas pelo espírito do grupo mas porque, a qualquer altura, o atleta menos talentoso pode ser decisivo. Proíbo os atletas de fazerem qualquer comentário  sobre os árbitros e eu próprio nunca falo neles, porque quando atiramos as culpas para os árbitros, desresponsabilizamo-nos e não reflectimos sobre os nossos erros. E sou muito crítico quando vejo algum colega a refilar com outro. Em suma, sorrisos, prazer, compromisso e educação são as peças fundamentais nas minhas equipas.
 

Quais as aprendizagens mais importantes que o desporto te deu? Que transferências destacas para a vida fora dos pavilhões?

Não virar a cara nos momentos difíceis foi uma das lições. Aprendi que nada se consegue sem esforço e que o talento não chega. Naturalmente que aprendi a relacionar-me com quem está ao meu lado e que, muitas das vezes, sem o apoio de alguém nunca conseguiremos chegar a nenhum lado. No desporto, como na vida, sonhar é o primeiro passo.



 
















Quais os maiores desafios que enfrentaste no Andebol? Com que mentalidade os encaraste?

No Alavarium, numa das épocas vemo-nos com hipóteses de ganhar o campeonato, algo impensável. Uma equipa que recentemente vinha da 2ª Divisão, poder tornar-se na melhor equipa portuguesa. Vencer esse campeonato passou a ser um enorme desafio porque chegámos aos playoffs como a melhor equipa na fase regular, mas sem que nós próprios estivéssemos preparados para isso. Curiosamente, foram as jogadoras que mais me fizeram sentir essa nossa obrigação de sermos campeões e a forma como o encarámos foi como a hipótese de concretizarmos um sonho. Para isso, mantivemo-nos fiéis ao que vínhamos fazendo em termos de treinos e forma como encarávamos os jogos, mas a comunicação para o exterior foi de uma equipa que queria ser campeã. A chegada a seleccionador nacional foi outro enorme desafio. Algumas jogadoras não entenderam que o meu lado simpático e sem berrar não queria dizer que não era um grande defensor da disciplina e foi preciso alguns meses para arrumar a casa. Mas fez-me perceber que, seja em que situação for, temos que ser fieis ao nosso estilo e aos nossos valores. Por último, no São Bernardo, encontrei um clube onde me diziam que os jogadores faltavam aos treinos e onde os cartões vermelhos se sucediam e a própria cultura do clube era de um sentimento de perseguição por parte dos árbitros. Consegui incutir aos jogadores o prazer de treinar e a obrigação de o fazer, deixando alguns dos melhores de fora quando faltavam ou não se aplicavam nos treinos – na primeira época isso custou-nos alguns jogos mas foi a base para o futuro. E perceberam que hostilizar os árbitros em nada nos ajuda, bem pelo contrário. Naturalmente que, nos treinos, quando apito os jogos entre a nossa equipa, qualquer palavra dirigida ao árbitro implica um castigo. Tolerância zero nesta matéria.



Quais as características mentais que mais admiras num(a) atleta? E num(a) treinador(a)?

Num atleta, colocar a equipa à frente dele próprio, saber aceitar um erro como parte do processo e uma vontade férrea de ser melhor todos os dias. Num treinador, perceber que a liderança não se impõe, conquista-se. Aprecio os treinadores que não colocam objectivos fáceis para se defender e que fazem os atletas sonhar. Sem sonhos ninguém chega alto. Gosto dos treinadores que percebem que no desporto o mais importante são mesmos os atletas. E, num treinador e atleta, aprecio muito a educação. Se calhar, para outros será irrelevante, para mim a educação e o respeito é o princípio de tudo.



















Qual a importância do Treino Mental na tua preparação diária enquanto Treinador? E na do Ulisses, jovem atleta? Quais as diferenças entre o que praticavas enquanto atleta e o que preconizas para os teus atletas? Que evoluções maiores (e desafios) registas nesta área do treino?

Enquanto atleta, tive a sorte do meu primeiro treinador (Zé Rui Leitão) me ensinar a importância de respeitar os treinadores. O segundo treinador (Mário Santos),a nível da preparação mental, fez-me acreditar que com treino tudo era possível, não havia limites. E o treinador que mais me marcou a nível de sénior (Nikolay Gueorguiev) fazia-nos sempre nunca recear quem tínhamos pela frente. Fosse de um clube grande ou tivesse mais 20 centímetros, acreditávamos sempre que os podíamos vencer. Como treinador, procuro que os meus atletas estejam confiantes dos jogos difíceis e com algum receio antes dos jogos mais fáceis. Que se sintam sempre com vontade de melhorar o seu jogo, fazendo-os acreditar que podem chegar longe. Incutir a crença no atleta, é fundamental para que ele esteja sempre motivado.















Muitas vezes fala-se do Treino Mental como sessões espectaculares preparadas para o efeito, eu entendo que tudo aquilo que faz o atleta pensar além da técnica e da táctica faz parte desse treino mental. Creio que hoje é mais difícil ser-se treinador do que há 20 anos atrás. Porque a educação dos jogadores subiu muito e é mais difícil levá-los num caminho sem que eles acreditem que esse é mesmo o melhor caminho e porque actualmente, na formação, os jovens não reagem bem à adversidade. As novas tecnologias são importantes e motivam-nos mas o treino mental aplica-se em cada palavra, em cada olhar. Sou um grande adepto dos reforços positivos, pois acredito que são bem mais eficazes do que os puxões de orelhas. Mas nunca deixemos de dar feedbacks. No Alavarium, no último ano em que treinei a equipa, a meio da época uma atleta perguntou-me: “Uli, já desististe de mim? Há 3 semanas que não me dás nenhum feedback”. Na altura respondi de imediato que não, mas nas horas seguintes fiquei a pensar no que me tinha dito e ela tinha razão. E mudei a atitude porque estava a errar e foi uma enorme lição para os anos que se seguiram.



Charles Darwin constatou que "a evolução resulta do caos dentro de limites muitíssimo bem definidos". Que "linha vermelha" não admites que os atletas ultrapassem?

Que os atletas reclamem com colegas e árbitros. Que fiquem tristes quando individualmente jogam mal e a equipa ganha. Que não sejam pontuais. Que minutos antes de começar o jogo (quando lhes pergunto) não saibam as 3 chaves do jogo que lhes dei na véspera.


Tendo a oportunidade de trabalhar com equipas masculinas e femininas, quais as principais diferenças entre elas? Como ajustas a tua abordagem face a essas diferenças?

Em termos de aplicação, as mulheres que levam o desporto a sério são de uma entrega inexcedível. Mas o relacionamento entre elas é bem mais complicado do que entre os homens. Os homens se se chateiam, podem até entrar num confronto físico mas o problema é quase sempre sanado logo no momento. Nas mulheres, é exactamente o oposto. A maior parte das vezes guardam para elas, depois dizem a uma colega e, na sombra e no silêncio, a tensão vai-se agudizando e criando facções, num clima de paz podre. A forma como costumo lidar com isso é, sempre que sinto essa tensão, procuro subtilmente fazer deflagrar um conflito evidente entre essas pessoas, de forma a obrigá-las a falar. Pode ser um momento difícil, mas dissipa a tensão no ar.

















O que te realizaria mais enquanto Treinador? Como vês o teu futuro na modalidade?

Como treinador, o meu objectivo é fazer pessoas felizes. No Alavarium assim foi e senti no auge da felicidade, no São Bernardo o objectivo é o mesmo e na selecção também. Iria realizar-me subir de divisão este ano com o São Bernardo e conseguir o apuramento para uma grande competição com a selecção, mas para isso vai ser preciso algum tempo e nem sempre há essa paciência com os treinadores. Eu até há 5 anos atrás, vi sempre o andebol como um hobby mas as responsabilidades vão aumentando e é cada vez mais parte maior dos meus dias. Quando se chega à selecção cumpre-se um sonho, mas o meu objectivo continua a ser fazer as pessoas felizes.


Algum conselho a quem te admira e segue? Algum Lema que sigas e que queiras partilhar connosco?

Sonhar não basta, mas é o princípio de tudo. E, para os treinadores, não sejam diferentes do que são na vida fora dos campos. Porque a genuinidade é algo que não tem preço e que os jogadores sentem.














 

Muito Obrigado pela tua partilha!

Seguramente que nos ajudará a todos a aprender e a mudar.

Votos dos maiores sucessos, pessoais e desportivos!


Um Abraço,
Fernando Santos